Morde a Fronha e Assopra
Terminou na última sexta-feira a novela global “Morde & Assopra”, com direito a final feliz de seus dois casais gays. Casal gay? ? ? ? ? ? ? ? Pois é, a novela tinha nada menos do que dois, mas, como maridão e eu sempre discutíamos entre um porre e outro, eles foram praticamente ignorados pela nossa "militância". Personagem gay só serve, para esse pessoal, se for pra fazer celeuma em cima da questão da homofobia. Se tiver uma trama lacrimejante, com o cara sofreeeendo para se aceitar, melhor ainda. Se o infeliz apanhar ou morrer, vira mártir. E se der pra fazer proselitismo político com o famigerado “beijo gay”, nem se fala! Personagem gay carismático e queridinho do público não vale. É quase um “traidor do movimento gay”.
Pois os quatro personagens da novela eram interessantíssimos e dialogavam com uma boa parcela da produção cultural gay contemporânea. Áureo (André Gonçalves), Josué (Joaquim Lopes), Xavier (Anderson di Rizzi) e Elaine (Otaviano Costa) caíram no gosto popular. Quem acompanhava a novela torcia por eles. Não porque eram gays, ou porque fossem coitadinhos dignos de pena – mas sim porque eram personagens carismáticos, se eram gays ou pinguins mutantes, era algo indiferente. Embora muita gente só goste de ver o mundo com olhos alarmistas, é mais ou menos parecido com o que acontece no mundo real...
Dentre todos, o personagem mais legal era, sem dúvida, o Áureo. Afetadíssimo, primeiro tínhamos a impressão de que ele só se fazia de gay para pegar a mulherada, depois ele foi se mostrando ao conhecer o caipira Josué. A dubiedade durou a novela toda, até que, no penúltimo capítulo, Josué se revelou e pediu ao amado que não se casasse com a gostosona da trama – devidamente abandonada no altar!
Incrível – mas totalmente imaginável – nossa “militância” não dar valor a uma cena como essa! É no mínimo considerável ver que uma novela das sete mostre um homem largando a noiva no altar para ficar com outro cara, e todos os telespectadores – e não apenas os gays - fiquem satisfeitos, afinal de contas, torceram para isso! Não dá pra ignorar a dimensão de algo assim... Maridão até me perguntou no sábado, se algum grupo gay publicara uma carta aberta a respeito... até parece!
O outro “casal” da trama era mais surreal. Elaine (foto) na verdade era um picareta que se vestia de mulher para fugir de suas três ex-esposas, que cobravam pensão alimentícia. Só que o guarda Xavier cai de amores por ele(a), até o dia em que o cara dá um porre na pretendente, e ao apalpar descobre que "ela" era "ele"... Mas é claro que terminam juntos... No final, os dois casais fogem num fusca para São Paulo, terminado a novela numa boate gay fazendo um número a lá “Priscila, a rainha do deserto”.
Novela pode até ser uma grandiosa bobagem (eu não acho), mas é algo que faz parte da identidade cultural do nosso país. Que "Morde & Assopra" tenha mostrado personagens "gays" aceitos de forma tão espontânea não deixa de ser um sinal de que, talvez, nem só de lampadadas na av Paulista seja feita a nossa sociedade, como alguns querem fazer crer...
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