segunda-feira, 5 de abril de 2010

Naquela mesa tá faltando ele...

"Naquela mesa ele sentava sempre, e me dizia sempre o que é viver melhor...
E nos seus olhos era tanto brilho, que mais que seu filho, eu fiquei seu fã ...
Eu não sabia, que doía tanto, uma mesa num canto, uma casa e um jardim ...
Naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele tá doendo em mim"

(Elizeth Cardoso & Sérgio Bittencourt- Naquela Mesa)


Na última Sexta-Feira Santa fez três meses que meu pai faleceu. O incrível é ver como ele se faz presente em pequenas coisas do nosso cotidiano. Esses feriados santos eram bem a cara dele, nem um pouco religioso, mas seguidor ferrenho dos rituais. Como todo bom filho de judeu português convertido ao cristianismo, o bacalhau da sexta era sagrado. Não comia carne um bom tempo antes.

Nossa família pode ter 500 milhões de defeitos, mas todo mundo é muito próximo. Todo final de semana é uma desculpa para reunir todo mundo num churrasco. E meu pai sempre era o primeiro a subir e parar ao lado da churrasqueira.

Na Sexta-Feira Santa, na hora do almoço, estávamos reunidos aqui em casa, e era impossível não sentir sua falta. Era só olhar na cara da minha irmã, do meu sobrinho, ouvir os comentários da minha mãe. Enquanto cada um fazia seu prato, sua falta era quase palpável. Coincidentemente, todos estavam vestidos de preto, até comentei o inusitado. Nesta mesma hora meu amor me ligou em casa, e foi muito bom ouvir sua voz num momento daqueles.

Meu pai adorava meu namorido como um filho. Se sabia ou não, nunca falou algo a respeito. Mas era só ele ficar dois ou três dias sem aparecer aqui em casa que o velho vinha me perguntar se tínhamos brigado. Muitas vezes, nós, filhos, ficávamos desesperados porque ele não queria tomar algum medicamento. Era só meu amor chegar e explicar, e ele tomava tudo.

Meu pai já estava velhinho, e sofrendo muito por conta de uma doença obstrutiva crônica nos pulmões, que fez com que nós assistíssemos a sua morte lenta e agonizante por mais de um ano, fazendo o que era possível para diminuir seu sofrimento, mas sem a menor esperança de cura. Para ele, a morte foi um descanso, de fato. Aceitei bem sua morte, eu não me conformava era com seu sofrimento.

Mas não é dessa fase que todos se lembravam à mesa. O velho que ficou em nossas recordações era o baixinho piadista, que tirava sarro de tudo e de todos, que se emocionava e chorava com qualquer coisinha, que corria para dentro do carro da minha irmã ao menor convite para um passeio, que brincava na piscina do clube como uma criança, que nunca parava em casa, vivia em seu mundo, pois havia vida demais nele para desperdiçar parado. Enquanto resistiu, foi assim que ele viveu, intensamente, cada segundo, para espanto dos filhos caretas e da esposa. Se eu tiver, um dia, 10% da força e da alegria de viver que ele teve, me dou por satisfeito!

Como diz a música, naquela mesa estava faltando ele, a saudade dói, mas sei que onde ele estiver ele se orgulha muito dos seus filhos, netos, e sabe que é responsável direto por tudo o que somos e ainda seremos.

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