terça-feira, 22 de março de 2011

De Olhos Bem Fechados...


Sábado voltamos mais cedo para casa e quando ligo a TV, dou de cara com o filme “De Olhos Bem Fechados”( Eyes Wide Shut, 1999) passando no SBT. Para quem veio de Marte, trata-se do último filme do incensado diretor Stanley Kubrick, morto no mesmo ano e lançado postumamente. 

O longa é estrelado pelo casal Nicole Kidman e Tom Cruise, na época casados na vida real. Muita gente torce o nariz para o filme, mas eu acho que é o melhor trabalho do diretor. Sim, eu sei que ele fez “Laranja Mecânica”,” 2001: Uma Odisséia no Espaço” e “O Iluminado”, mas nenhum deles me diz nada de especial. “Laranja Mecânica” é violento e tals, mas é daí? “2001” é legal, mas pode ser uma ótima alternativa ao uso de sonífero. “O Iluminado”, para quem leu o livro, é decepcionante. Volto ao "De Olhos...".

Para quem não é chique o suficiente: o filme é baseado no livro  “Traumnovelle”, do austríaco Arthur Schnitzler. O escritor foi amigo de Freud e colocava em sua obra literária várias questões que o pai da psicanálise dissecava de forma teórica. Maridão e eu, é claro, lemos o livro. Em alemão, é claro – até porque não existia ainda tradução brasileira. Hoje há, e se chama “Breve Romance do Sonho”.

Kubrick e o roteirista Frederic Raphael conseguem a façanha de adaptar o enredo, que originalmente se passava na Viena da virada do século, para a sociedade americana atual (1999, ok?).  É claro que não é uma exceção à regra de que o livro é melhor do que o filme, mas é, pelo menos para mim, um dos casos mais felizes de adaptação de obra literária.

O que essa história tem de tão especial? Como o título sugere, tudo fica naquela zona obscura, o estado intermediário entre o inconsciente e o consciente. No filme, o casal perfeito Alice -  curadora de arte  e o doutor Bill Harford vão a uma festa e lá o marido vê a esposa dançando com outro homem. Fica intrigado/exictado. Ao mesmo tempo, é assediado por duas “modelos”. Chegando em casa, após um baseado, começam a conversar sobre o assunto. E ela quer saber se ele se excita ao tocar nas pacientes.Chapada – lembram do estado intermediário, né? – ela conta que durante uma viagem de ambos ela vira um cara que despertara algo nela: era um marinheiro e ela se imaginou transando com ele, e naquele momento seria capaz de largar marido e filhos se o cara tivesse chegado nela. Pior: transou com o marido pensando nele. Este é o gatilho que dispara tudo! 

Eu sou ciumento pra caramba, então entendo tudo o que se passa na cabeça do marido... Ele pira, não consegue tirar a imagem da cabeça e sai à rua numa viagem surreal. Poucos filmes dissecam tão bem a alma masculina, principalmente ao mostrar como uma ideia fixa obsessiva é capaz de nos tirar totalmente nosso chão, deixando de lado todo resquício de racionalidade (lembram do estado intermediário, né?). Vão se passando acontecimentos insanos no filme, que acaba entrando num clima de mistério em que morte e sexo caminham lado a lado, e o sonho se torna pesadelo. O auge do filme é uma festa secreta (foto) – na verdade uma orgia – em que só entram convidados mascarados, conhecedores de uma senha. Uma das cenas mais antológicas do cinema. 

Quem nunca viu, perca algumas horas de sua vida diante deste filme.  Ele tem um ritmo lento, mas em nenhum momento se torna chato. A música é sensacional – CD obrigatório na minha estante - a fotografia, o roteiro, até o Tom Cruise está bem em sua atuação.

É claro que sábado fiquei deitado em minha cama, naquele estado letárgico que o filme imprime, e vi mais uma vez... contando cinema, DVD e TV, já perdi a conta de quantas foram...  um dos meus filmes preferidos de todos os tempos.


Ps. Tecnicamente falando, foi o primeiro filme que vi com o maridão. Ele estava se recuperando de uma cirurgia e eu levei o DVD (ou era VHS?) para vermos juntos – eu, pela quarta ou quinta vez... Também foi a primeira vez que fui à casa dele...mas isso é assunto para outro post... 

11 Comentários:

Wans disse...

Kubrick era gênio. Não só pelos filmes que vc citou, embora ache 2001 uma M...(marido vai me bater agora). Mas também por Nascido para Matar, Dr. Fantástico, Spartacus...
De Olhos bem fechados é phoda. Ele me causa uma mistura de desejo e medo. A cena da suruba mascarada ao som de Jocelyn Pook mexe comigo como há muito nada o fez.
Sábado, falávamos com uns amigos sobre como Kubrick transformaria Inteligência Artificial em algo brilhante. Daí ele morreu e Spielberg transformou num drama. Um grande drama, mas longe de ter a qualidade que Kubrick emprestaria ao filme.

Titchya Alda disse...

Graças a Cher que eu li alguém falando sobre esse filme. Eu ainda não vi, mas, assisti aos outros filmes do Kubrick, inclusive o Lolita que é um leesho! Nem o fato do próprio Vladmir Nabokov escrever o roteiro, entusiasma. Vou parar pra ver "De olhos bem fechados", quem sabe eu controlo a minha mente obsessiva de alguma maneira?

Junnior disse...

Vi o filme e lembro da polêmica em torno do filme e do casal protagonista que, na ocasião, suspeitava-se que já estava em clima de separação na vida real.
Bj.s

Ma disse...

A cena da suruba é tudo ! A primeira vez q vi tinha uns 13 anos e fiquei doido, heheh

abs

Serginho Tavares disse...

Até que enfim vejo alguém que concorda comigo!
Eu achei este o melhor filme do diretor, um espécie de canto do cisne porque os filmes anteriores dele, assim como aconteceu com você, nunca me sensibilizaram!

Beijos

Paulo Braccini disse...

Para mim De olhos bem fechados é mais uma obra prima de Kubrick ... adoro toda a obra dele ... creio q assisti a todos. Mas para mim Laranja Mecânica ainda é o seu melhor trabalho ...

;-)

Dan disse...

eu vi faz tempo, era bem muleke. certeza que se assisti-lo hoje, teria uma outra interpretação!

vou ver né?
bj pro casal!

melo disse...

como assim 2001 = sonifero?
é o fim! vou arrumar uma sessão aqui em casa onde assistiremos o filme e depois discutiremos para todos verem que não é tão complicado assim, oras!!

voltando, já disse que adorei a casa nova? ficou muito bom mesmo.

gosto de EWS, muito também mas não acho que seja o melhor filme de SK, preciso dizer qual eu acho? não, né?

acho um tratado sobre as inseguranças humanas e como estas minam relacionamentos onde não se pode dar vazão aos seus desejos.

temos esse ideal de amor romantico onde precisamos de um par, de outro, uma cobrança social para que sejamos um casal e quando nos tornamos isso, idealizamos no outro tudo aquilo que desejamos mas esse outro não tem como atender a todas essas demandas que são ilusórias, é humanamente impossível.

então, fazemos das relações becos de frustração isso só porque tanto nós como o os outros são apenas humanos e não essa idealização do humano que queremos ter num relacionamento.

acho que só funciona quando você entende que é preciso amar e entender um ao outro como somos, qualidade e defeitos sem projeções mas isso não é fácil e, como no filmem, adotamos mascaras de perfeição.

melo disse...

nota:

AI realmente, se tivesse sido feito por SK terimaos muito provavelmente um clássico da ficção científica...

outro 2001, quem sabe? mas, deu no que deu...

Anônimo disse...

Adoro a obra desse diretor e concordo quanto ao Iluminado, mas normalmente, o livro é mesmo superior aos filmes.

Também sou ciumento, entendi bem a angustia dele.

"Também foi a primeira vez que fui à casa dele...mas isso é assunto para outro post... " Estou esperando o outro post rsrs

FOXX disse...

bem, eu fico dividido com o laranja mecanica e ele, mas concordo com a critica ao 2001...

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