terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Paredão DPNN: Gays x Evangélicos

O escritor americano Ambrose Bierce já dizia que o cristão é "aquele que segue à risca os ensinamentos de Cristo, desde que estes não sejam incompatíveis com a sua vida de pecado”. Acho que a frase tem muito de verdade, mas eu diria que ela se aplica mais ao católico do que ao evangélico - que em geral segue mais a risca os preceitos da religião escolhida.

Penso nisso toda vez que vejo a pseudoguerra pseudossanta entre gays e evangélicos tomando conta do que deveria ser um debate adulto. Militantes, gays "comuns", pastores e fiéis se digladiam em mostras de intolerância e preconceito mútuos. Uma guerra, como todas as outras, sem sentido. 

Antes de mais nada, acho perfeitamente normal que qualquer pessoa possa se opor à homossexualidade, inclusive acho legítimo que essa oposição seja verbalizada. Emitir opinião sobre práticas humanas faz parte da vida em sociedade (segundo matéria do Estadão, Falar mal dos outros é o melhor jeito de fazer amigos.) Da mesma forma que acho legítimo que uma pessoa tenha opinião (e a expresse) sobre questões religiosas. Num mundo adulto, dá para viver bem aceitando o fato de que nem todo mundo é obrigado a gostar de você, do que você pensa ou do que você faz. Ou pelo menos deveria ser assim.

Acho coerente da parte de um evangélico se opor à homossexualidade - se ele segue realmente o que sua religião diz, de fato não pode concordar com práticas homossexuais. O que ele não pode é impedir que dois adultos, em consenso, vivam sua sexualidade dentro dos limites da vida privada, ou que expressem seu afeto publicamente nos mesmos termos socialmente aceitáveis aos heterossexuais.

Em outras palavras: nenhum evangélico pode me impedir de transar louca, intensa e maravilhosamente com o maridão, nem pode me impedir de pegar na mão dele, beijá-lo ou abraçá-lo na rua. Não gosta? Problema seu, viva com isso. E nem precisa de lei específica pra garantir este direito, as nossas dão conta do assunto perfeitamente. Por outro lado, acho que os evangélicos têm todo o direito de achar (e dizer) que nós dois vamos pro inferno por causa disso. 

Não me choca ver um pastor dizendo na TV que a homossexualidade é coisa do capeta. Eles estão apenas mostrando aos seus seguidores que se mantém coerentes aos preceitos que pregam (ou estão sendo apenas oportunistas fazendo uso de um expediente que eles sabem que causa impacto - e, nesse caso, eles que acertem suas contas com Deus). Eu ficaria realmente chocado se eles assim não pensassem, pois estariam indo contra sua própria religião - e sou do pensamento de que só é possível ser religioso se for pra valer. É por isso que não sigo religião alguma. Não encontrei uma da qual eu fosse incapaz de discordar e não vou entrar em uma para querer mudá-la, de modo que se adapte a mim. Minha arrogância não chega a tanto (se chegasse, fundaria logo uma religião para me adorar...rs...). Religião é escolha, cada um que viva da melhor forma possível com as escolhas que faz na vida. 

Embora a grande maioria dos evangélicos tenha uma posição bem clara contrária à homossexualidade, dizer que todos são homofóbicos é um exagero, é, vejam só: preconceito - mas estou cansado de ver os gays repetindo isso a todo instante, ou repassando mensagens preconceituosas pelas redes sociais (dia desses havia uma montagem com os "maiores homofóbicos do Brasil" sendo compartilhada orgiasticamente no Facebook. Fui ver e, surpresa, só havia pastores evangélicos! Poucas vezes vi tanto preconceito quanto nos comentários que acompanhavam a imagem.). Com certeza há evangélicos homofóbicos, mas pessoas assim existem em todos os setores da sociedade – e, felizmente, ao contrário do que muitos afirmam, são a exceção. As pessoas mais intolerantes que conheço são gays - e muitos dizem lutar contra a intolerância! 

A coerência do discurso do evangélico explica porque os gays (eu diria que alguns gays) têm mais problema com eles do que com os católicos. Poucos são os católicos que levam os dogmas da igreja a sério e seguem a risca o que a religião prega. Eles estão mais de acordo com o que o Ambrose Bierce definiu lá em cima. Eu iria mais longe ainda e diria até que só existe um católico que segue à risca tudo o que a igreja diz: o Papa. Não à toa, é o católico mais "satanizado" pelo "movimento gay". Por força de ofício ele é obrigado a não relativizar os dogmas e preceitos do catolicismo. 

Em tempo: entender a coerência destes discursos não significa concordar com eles. Eu entendo, embora discorde. E a vida segue. 
Pensar algo como “a pessoa pode não gostar de gay, mas não pode falar isso” é tão maluco quanto dizer que “a pessoa pode ser gay, mas não precisa jogar isso na cara da sociedade”. Apenas apologia da hipocrisia. Jogar limpo é sempre melhor - ou deveria ser. O mundo atual é bastante hipócrita, e o politicamente correto vai nos levando cada vez mais nesta direção, de jogar tudo para baixo do tapete. De modo geral, temos muita dificuldade em aceitar discursos coerentes - e digo isso em relação a todos, não apenas aos gays.  A "coerenciofobia" impera em nosso cotidiano, e quando nos deparamos com pessoas que fazem o que falam, corremos a implorar por nossa dose necessária de hipocrisia para voltar a por os pés no chão. 
Um belo exemplo de incoerência: quando, no ano passado, um juiz brasileiro, motivado por sua crença religiosa, deixou de cumprir a lei e se recusou a realizar uniões entre pessoas do mesmo sexo, todo mundo se revoltou e criticou - com toda razão! Semana passada li esta notícia dos EUA sobre uma juíza lésbica que se recusa a realizar casamentos entre heterossexuais até que o casamento gay seja aprovado no Texas. Todo mundo vibrou e achou o máximo - menos maridão e eu. Por mais nobre que sua atitude pareça, é exatamente a mesma de um juiz evangélico que se recusa a casar dois homossexuais unicamente com base em suas convicções pessoais. Coerência é achar que um juiz deve seguir o que a lei diz, e não o que ele gostaria de que ela dissesse.  

Outro exemplo: vejo muita gente dizendo que "gay vota em gay" e se posicionando contra o crescimento da bancada evangélica no congresso. Acho que a bancada evangélica tem o direito legítimo de levar suas pautas adiante, e elas devem ser analisadas como as dos gays ou de qualquer outro grupo social. Se não forem inconstitucionais e servirem a todos os brasileiros, ótimo. Só não vale legislar em causa própria (como aliás, os políticos gays fazem...). Se os evangélicos elegem seus representantes é porque estão mais organizados para isso, mérito deles - proporcionalmente, creio que o número de homossexuais no Brasil não seja tão inferior ao de evangélicos e não existe qualquer impedimento legal para uma “bancada gay”. Se as pautas devem ser aceitas ou não, isso é outra história. Só não cabe censura prévia a nenhuma das partes. Se a gente acha que "gay vota em gay" (eu particularmente não acho, mas aceito a tese pro post não ficar maior), por isonomia, evangélico pode votar em evangélico. 

Para acabar de vez com esta “briga”, evangélicos e gays deviam ouvir o grande Dr House: “o que você pensa sobre mim não vai mudar quem eu sou. Mas pode mudar meu conceito sobre você.” A gente sabe onde a intolerância vai parar. No Irã, ser gay ou ser cristão são crimes equivalentes, ambos puníveis com morte por enforcamento: 


Não é viável tentar combater preconceito com mais preconceito ainda. Diversidade não é querer que todos concordem com um único discurso, mas sim aceitar o fato de que diferentes discursos possam conviver no mesmo mundo. Há coerência no caos.
.

13 Comentários:

Raphael Martins disse...

Ótima postagem, parabéns. Acho que o Silas Malafaia declarou guerra naqueles out- dorrs sobre macho e fêmea. Depois daquilo a rivalidade aumentou muito!

DPNN disse...

Raphael, aqui em SP out-door é proibido por lei, então não tivemos a "honra" de conviver com estes, mas já vi as imagens. Acho essa rivalidade ruim para os dois lados, mas vejo que ela também é explorada pelas duas partes envolvidas.

FOXX disse...

Vários comentários:

1) "vivam sua sexualidade dentro dos limites da vida privada, ou que expressem seu afeto publicamente", não tem uma oposição de conceitos nessa frase não? é na vida privada ou publicamente? onde os homossexuais podem ter liberdade?

2) não precisa de lei para permitir que vc ande de mãos dadas com seu marido? em q planeta vc vive? vc nunca viu algum casal gay ser abordado por seguranças de shoppings por ex que pediram para eles pararem?

3) eu fico chocado com evangelicos pregando na TV pq a TV é uma concessão pública, então eu, homossexual, tb sou dono dela e não qro alguém me xingando dentro da minha casa...

4) a pessoa pode não gostar de gays e pode falar isso, mas fazer apologia ao ódio, isso não pode...

5) concordo sobre a juiza lésbica.

6) discordo sobre a bancada evangélica, eles tem todo o direito de legislar sobre causas próprias, afinal eles foram eleitos para representar um setor da sociedade, os gays precisam votar em seus próprios representantes. é assim que a democracia moderna funciona.

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Continuo respeitando o direito de todos ... pensar, falar, defender e coisa e tal ... mas para tudo tem o limite né? e o limite é o respeito ao direito do outro ... as coisas sem dúvida podem ser bem mais simples ... a rivalidade só deteriora este possível e necessário respeito ...

Wans disse...

Eu concordo contigo. ninguém é obrigado a nos engolir, mas quando começam a querer impedir nossos direitos aí já é phoda.
tenho amigos na empresa que sdão evangélicos e a maioria deles me respeitam e é isso o que vale.

DPNN disse...

Vamos lá, Foxx:

1. não há contradição, uma coisa é a vida sexual, outra é a social. Ninguém (hétero ou gay) tem o direito de exercer sua vida sexual em público, mas o tem em privado. Manifestar afeto em público é outra coisa, sem conotação sexual.

2. Sim, não precisa. Um segurança que toma essa atitude está errado e pode ser enquadrado nas leis que existem, pois ninguém no Brasil pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer algo a não ser por virtude de lei. Não há lei que proíba dois homens ou mulheres de andar de mãos dadas em um shopping.

3. Não vejo problema na sua colocação, nem acho que ela vai contra o que eu escrevi.

4. Concordo contigo, apologia ao ódio não vale - mas para os dois lados da questão.

5. Se você concorda com a juíza, então não pode reclamar de descumprimento das leis no Brasil. O que ela fez nada tem de justiça, muito pelo contrário.

6. senadores e deputados podem e devem defender os direitos de seus eleitores, nisso estamos de acordo, mas também representam seus estados de origem na federação, então precisam legislar para todos.

Bratz,

como eu escrevi lá, se todo mundo se comportasse como ADULTO, com certeza haveria respeito mútuo aos direitos.

Wans

o mesmo acontece comigo, a maioria me respeita, até porque eu também os respeito. Não vejo motivo para se criar um cabo de guerra.

Fred disse...

O que o respeito, a maturidade, a tolerância não der conta aplica-se o "problema seu, viva com isso". Soudesses! Respeito não é coisa que gente peça. Respeito a gente impõe mesmo.

Ma disse...

Seu texto foi bom e no geral concordo com o Foxx, mas os evangélicos já me causaram problemas demais e prefiro pensar que ninguém tem direito de ser cruel com nenhum setor da sociedade, muito menos utilizar da máquina pública pra isso legislando leis que são apenas de seu interesse (o universo religioso está protegido por constituição. Nenhum pastor, padre etc é obrigado a fazer o que não quer e inclusive possuem legislação específica). Um juíz não, sua função é legislar seguir a lei, da maneira mais correta possível

Enfim, não discutirei pois sou do grupo evangelicofóbico que desceu o cacete em alguns deles após sentirme invadido por eles com um sorriso de orelha a orelha, e quando temos preconceitos já formados, mudá-los é complicado

Anônimo disse...

É isso aí! O que dizer mais?

S.A.M disse...

Adorei a amarração final com o Irã onde os dois lados da moeda são crimes!

Enfim, nem sempre concordando mas sempre admirando o raciocínio de voces.

Beijao

DaviDown disse...

Comento muito pouco aqui....
assim leio (acho que lí todos)os textos
de vocês , mas de longe esse foi o pior
não pelo seu ponto de vista,mas sim pelo fato da "forma" como foi descrita .Mas assim moro onde as leis são formadas (minha área de atuação)e se a argumentação parlamentar firmasse nos seus argumentos os homossexuais estariam perdidos! A forma opinativa descrita não bate com uma medida que afeta todo o país,você pensa quase como um "iluminista",mas por mim você gastou força nos dedos para escrever "isso",por favor não me odeie mas isso foi horrivel....sem ofensas à pessoa que escreveu claro....

Anônimo disse...

Discurso religioso: Eu amo o gay, mas abomino a homossexualidade. Acho isso pura hipocrisia. Dizer isso é o mesmo que dizer que se ama o negro, mas abomina a sua negritude.

Anônimo disse...

a da um tempo isso e tudo besteira dizer que ser gay e normal e uym tanto ridiculoi !! Para mim isso e esquezofrenia querer alterar a realidade e doença !! Um cara que quer ser mulher isso não é normal !!

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