quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Alaska (Fangoria) - É da sua conta?




O português é uma língua linda, mas o fato de a falarmos nos isola tremendamente do resto do mundo. Um dos grandes exemplos é que, de modo geral, desconhecemos totalmente o que acontece culturalmente nos nossos países vizinhos. Pra ser ainda mais preciso, desconhecemos até o que é feito nos países de língua portuguesa... alguém aí conhece a cena musical de Portugal? Sempre fui um curioso musical, então acabo caindo na exceção. Música em outras línguas é um dos meus fetiches favoritos.
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Alaska / Fangoria. A simples menção de um destes nomes no mundo gay falante de espanhol vai causar a comoção equivalente a dizer "Madonna". Verdadeiro ícone gay na Espanha, só encontra um nome a altura em Almodóvar, com quem já trabalhou no início da carreira do cineasta (participou de seu primeiro filme).
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A moça da foto acima, Alaska (nascida Olvido Gara, no México) participou do melhor da cena espanhola (para onde se mudou ainda criança – mas maridão percebe o sotaque até hoje) nos anos 80, à frente de várias bandas (Kaka de Luxe, Alaska y los Pegamoides, Alaska y Dinarama)
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Dona de um visual andrógino, levanta até hoje questões sobre seu verdadeiro sexo. Seria um homem vestido de mulher ou uma mulher se passando por um homem se vestindo de mulher? Deu um nó? Ufa! O importante não era explicar, era provocar. Além de cantora, atriz e apresentadora, foi uma das idealizadoras da Parada Gay de Madri e até hoje é um de seus destaques. Sua música "¿A quién le importa?", de 1986, é considerada o hino gay da Espanha, e de praticamente todo o mundo falante de espanhol. Não foi à toa que a cantora Thalia, que de boba não tem nada, escolheu justamente esta canção para regravar e lançar como single...
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Não é por menos que a canção se tornou o hino gay, pois a letra parece ter sido escrita sob medida para este público. E, que bom, os gays espanhóis adotaram como hino não uma canção lamuriosa e vitimista, mas um grito de "foda-se! A vida é minha e eu faço dela o que quiser". (deve ser por isso que eles já podem se casar desde 2005, mesmo vivendo num país bem católico, e nós continuamos choramingando...) Numa tradução aproximada:
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"É da conta de quem?
As pessoas ficam me mostrando, me apontam o dedo
Sussurram pelas minhas costas, mas não estou nem aí.
E daí, se sou diferente delas? Não sou de ninguém, não tenho dono!
Eu sei que me criticam, consta que me odeiam, a inveja os corrói, minha vida os incomoda.
Por que será? Eu não tenho culpa, se meu jeito os insulta...
Meu destino é aquele que eu decido, é aquele que escolho para mim!
É da conta de quem o que eu faço? É da conta de quem o que eu digo?
Eu sou assim e assim continuarei, nunca mudarei!
Se eu tiver culpa por não seguir a norma, já é tarde demais para mudar
Me manterei firme em minhas convicções, reforçarei minhas posições
Meu destino é aquele que eu decido, é aquele que escolho para mim
É da conta de quem o que eu faço? É da conta de quem o que eu digo?
Eu sou assim e assim continuarei, nunca mudarei..."
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Eterna musa do underground espanhol, um misto de David Bowie, Boy George, Siouxsie, Nina Hagen e Elke Maravilha, depois de investir no punk, gótico e na new wave nos anos 80, hoje em dia ela está à frente do duo alternativo de dance music Fangoria (quem gosta de filmes de terror captou a referência do nome...). No ano passado, a diva se apresentou para mais de 50 mil pessoas, num show transmitido pela MTV espanhola.
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Maridão e eu ficamos com essa música na cabeça desde a semana passada. Quando não era um, era o outro cantado... eu, fazendo a Alaska, ele a Thalia...rs... Faço das palavras da Alaska meu lema de vida, porém com meu jeito menos poético de dizer:
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“Não gosta do que eu faço? Não gosta do que eu digo? Foda-se. Eu sou feliz assim, não vou mudar para te agradar...”
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14 Comentários:

FOXX disse...

acho q o problema não é falarmos português e sim o tamanho continental do Brasil...
ora, alguém q mora em são paulo não conhece a cena musical do nordeste a não ser as bandas de axé q são exportadas...
além dessas dimensões continentais, tb precisamos lembrar do preconceito historico que o Brasil tem com as margens, uma cidade como São Paulo não olha para cidades menores, o Brasil não olha para os países latinos ou os outros países de lingua portuguesa...

não faz sentido?

Edu disse...

Acho que o Foxx tem razão, afinal tudo que veio de fora (Ricky Martin, Shakira, Menudo, Luís Miguel, Lucio Dalla...) fez (relativo) sucesso. A questão é de acesso (se não passar na Grobo, não rola) e a Grande Mídia não tem tanto interesse assim. Claro que cabe a cada um buscar por vias alternativas mas, convenhamos, não é pra todo mundo.

E sobre o mundinho militante vitimista gay... ainda me falta muito feijão pra ser Fred ou DPNN, mas experiências recentes me fizeram desgostar bastante do modo como as coisas são tratadas. Ainda acredito na "luta", mas a "organização" da coisa precisava de uma virada.

Edu disse...

"Queridos, aprendam a moral da história: dar é sempre bom, tanto para quem dá quanto para quem vai comer."

APOIADO!!! :-)

Paulo Braccini disse...

adoro o lema: ele tb é o meu já há muito tempo ... PHODAM-SEmodeon!!!

bjão à dupla

;-)

Paulo Braccini disse...

"dar é sempre bom, tanto para quem dá quanto para quem vai comer."

amei e adotei ...

;-)

Junnior disse...

Há uma questão cultural muito forte nisto. O Brasil foi acostumado desde sempre a exportar o ouro e a importar as jóias (de grife, claro).
Culpa lá dos portugueses.

Junnior disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Junnior disse...

Me arrependi da última frase. Desconsidere. A esta altura, não há mais que transferir culpas.

Jean Borges disse...

Amo essas dicas... me apaixono pela maioria das bandas/cantores e filmes mostrados aqui!!!
Abraços!!!

Junior Healy disse...

Ah! o DPNN já faz parte dos blogs que curtimos lá no SAV.

Beijão para vocês!

Anônimo disse...

darling 01;
(SAUDADES! Estive verdadeiramente atarefado ultimamente. Mas não perdi um post desde a volta.)
Não acho que seja apenas uma questão de tamanho, tem coisa que vem do Oriente que é muito mais longe que os pampas ou o nordeste, e acabamos assimilando. Não podemos apenas valorizar as coisas que estão na mídia. Acho que tem público para todos os gostos. Aqui, em São Paulo, tem de tudo um pouco. Basta dar uma olhada na programação das casas de espetáculo (Via Funchal, Credicardhall, Sesc entre outros) que constataremos que tem público para tudo e todos sem distinção.
Adoro a versão da Thalia, já conhecia com a Alaska.
Sempre tive certeza que o vitimismo brasileiro fosse culpa de Portugal - basta ver a necessidade que temos de heróis para nos salvar.

Júlio César Vanelis disse...

Vou te dizer que adoro esses artistas, por mais underground que sejam, são fundamentais para a popularização da nossa postura perante o preconceito. Quanto a falarmos Protuguês, não acho uma grande limitação, se falassemos outra língua, mesmo que seja o espanhol, talvez nem conheceriamos a Alaska. Não se trata da língua, mas sim do país, e de como somos ignorantes com o que não vem da lixiera do norte (eu sou radical mesmo com os EUA, tenho um ceto preconceito...)

Um beijoo... Até o próximo

melo disse...

sabe que estamos fadados à extinção né? digo, quem fala português.

não conhecemos o que há que de cena musical por aqui (se é que há), que dirá de fora?

o que consumimos é o que o mercado internacional empurra e o que mercado local faz valer como bola da vez.

claro que todos não precisam ouvir Caetano mas você acha mesmo que as melações 'country'/pagode/ou seja lá o que for universitário ou 'neo' merecem estar onde estão?

por outro lado, o mercado dá o que o povo pede e se o povo quer circo, então tome circo, quero ver a hora que ele começar a pegar fogo..

não acho que falarmos nossa língua nos isola mas, como disse, contentar-se com o mercado sim. se todos fizessem como você (guardemos as proporções pois nem todos tem net e acesso etc...) conhceriam Alaska e outras/os ainda mais diversos.

pessoalmente tenho problemas com música em espanhol, não consigo, algum bloqueio, sei lá mas conheço bandas de outras partes do mundo que adoro e nem mesmo faço idéia do que eles falam (claro, é bom saber para não sair por aí cantando hinos fascistas anti viadas).

nota: esse 'moto' me apraz! vu adotar como meu, posso? posso?

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