sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A Estrela do Mar

“Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo! Quero a vida sempre assim, com você perto de mim, até o apagar da velha chama... 
E eu, que era triste, descrente desse mundo, 

Ao encontrar você, eu conheci o que é a felicidade, meu amor.” 

(Tom Jobim, “Corcovado”)



Se um dia alguém me perguntasse pelo momento de maior felicidade em minha vida, não teria dúvida alguma em responder: aquela noite de quarta-feira, Botafogo, Rio de Janeiro. Se esta mesma pessoa me perguntasse o porquê de minha resposta eu não saberia dizer. Não há um único elemento em jogo, mas sim uma combinação de fatores capaz de constituir um instante perfeito. Creio que isso seja no fundo a felicidade. Um momento tão perfeito quanto inexplicável, incapaz de ser recomposto, mesmo com a repetição exata de todos os seus componentes. Ouso dizer que Camus estava errado, ou conhecia muito pouco de felicidade ao escrever que “a felicidade é o sentimento piedoso de nossa infelicidade”. 

Na velha história recontada por Goethe, Mefistófeles concede a Fausto a juventude, e no instante do pacto diz que chegará o momento perfeito, e que diante de tal beleza o mortal pediria até que o mundo parasse. Se eu tivesse feito um pacto com Mefistófeles já estaria a esta altura sem minha pobre alma, pois não foram poucas às vezes, como agora, em que desejei que minha vida se resumisse àquele instante.

Chegara ao Rio de Janeiro naquele mesmo dia, após a partida da velha e triste – porém palco de ótimas lembranças - Paraty. O céu nublado acompanhava todo nosso percurso, e eu já perdia as esperanças de encontrar naquele Estado a sensação de felicidade produzida pela manhã de sol, tão bem descrita pelo New Order na canção “True Faith”, que mentalmente eu cantava ao longo da viagem. A passagem por Angra dos Reis mostrara uma cidade pequena, sem os encantos tão vendidos em editais da revista Caras. Apenas a linda vista de um mirante, uma pausa para olhar aquela imensidão esverdeada, o mar de cor pálida que em nada lembrava ser o mesmo visto no litoral norte de São Paulo. Quilômetros adiante, a vista de um píer, com grandes embarcações capazes de despertar em mim o mais completo horror.

Após um longo percurso, o mar, que sempre guiara nossa jornada, desaparece. À direita e à esquerda via-se apenas um grande nada. Uma imensa planície que me fazia pensar em Brasília, versão light, sem a assinatura kitsch de Oscar Niemeyer. Por muito tempo me senti perdido, e se fosse eu quem dirigia o veículo, não tenho dúvida de que pegaria neste momento o primeiro retorno para São Paulo. (Bem, minha sina de desistir de algo antes de tentar já é mundialmente conhecida.) 

Depois de percorrermos retas - que pareciam nunca acabar - as placas começam a indicar que já estávamos na tal “Cidade Maravilhosa”. Todos os morros pareciam ser o Corcovado, e eu procurava tolamente por uma gigantesca imagem de Cristo que funcionasse como um farol no mar, ou, como bom paulista, algo como a torre do Pico do Jaraguá. Mas nada de imagem. Uma dezena de morros depois surge agora o medo de cair subitamente numa favela, sob a mira de centenas de homens do Comando Vermelho, numa cena qualquer de “Cidade de Deus”. Para nosso espanto – e felicidade – não havia favela alguma, nem morro, nem homens armados: só prédios e placas - e nenhum mar. Nenhum mar, até que a avenida se torna um elevado, como o nosso “Costa e Silva”, vulgo “Minhocão” e, absolutamente do mais completo nada surge à esquerda um imenso navio da Petrobrás. A imagem insólita permaneceu em minha mente por toda a viagem, e mesmo hoje, ao admirar a foto tirada no momento, não posso afirmar ainda que a cena perdeu para mim seu ar de visagem.

Pessoas “suicidas” atravessavam as ruas movimentadas. O congestionamento monstro me fazia duvidar se realmente estava em outro Estado. Era o Rio de Janeiro ou o cruzamento da Ipiranga com a São João? A Central do Brasil denunciara que não era São Paulo. Mas cadê a tal Cidade Maravilhosa? Onde estava o mar? E, como falávamos, sobre o Redentor: cadê “O Homem”? Num dado momento, tive a impressão de ver algo sobre um dos morros. Achei que fosse o Cristo, mas era muito pequeno para isso, pequeno demais para o filho de Deus – um cara dado a obras grandiosas. Além disso, as nuvens naquele céu paulista ajudavam a esconder a imagem.

De súbito, surgem algumas praias. Até mesmo a famosa Copacabana, com sua combinação de urbano e natureza separados pelo asfalto. Mas eu continuava com aquela sensação de estar perdido, uma vontade louca de sair correndo para casa e repousar a cabeça no colo de minha mãe, como eu costumava fazer até mesmo em minha adolescência, e por algum motivo que desconheço deixei de fazer. Já no hotel, após um longo e necessário banho, deito na cama ampla, fecho os olhos por um momento e penso no mundo que estava em casa. Um estranho sentimento, não era saudade, não era falta daquele outro mundo, que também não era meu. Mas esse sentimento tinha suas horas contadas. Ainda eram umas cinco horas da tarde, muito aconteceria naquele dia.

Festa e descanso merecidos (para bom entendedor...) partimos, como bons turistas, em direção à famosa “me-escreve-uma-carrrrta” Central do Brasil. Após um telefonema para casa, a constatação: não gostaria mais de voltar, o telefonema era mera formalidade, muito mais uma obrigação moral do que uma necessidade de saber como andavam as coisas em São Paulo. Que São Paulo afundasse num abismo! Que o Bin Laden derrubasse uma fábrica de aviões inteira sobre o Estado! Teria me desligado total e definitivamente de minha família naquele momento se ouvisse uma proposta para ficar. 

Da estação para o metrô foi um instante, e do metrô para Botafogo foi quase seguir um instinto. Como um ato tão banal quanto tomar um trem podia adquirir um ar de aventura? Sentia-me quase que um desbravador. 
A maresia denunciava a proximidade da praia, que surgiu, escura e quase deserta. Caminhávamos, ladeados pelo mar, vez por outra sendo atingidos por pequenas ondas que rebentavam na faixa de areia, quando encontrei uma linda concha, única em toda a viagem. Sentamo-nos diante daquele mar negro, no qual algumas embarcações dançavam em movimentos sincronizados da maré. Vez por outra um peixe saltava diante de nossos olhos provocando uma tremulação na luz que o mar refletia. Minha mente parecia distante, mas estava tranqüila. Como se meditasse. Uma estranha sensação de felicidade dominava meu espírito. “A sudden sense of liberty”, já cantara o New Order. Olhei para o meu lado, e quando vi o teu sorriso, percebi que nada poderia ser mais perfeito.

Neste mesmo instante, como que por pura ironia, talvez para assumir a autoria da obra, surgiu entre as nuvens, pela primeira vez naquela viagem, envolta numa luz amarelada, a imagem do Cristo Redentor. 

Mefistófelis...Perdestes facilmente uma alma!

Ps. para quem chegou ao final deste texto longo, a explicação: ele foi escrito por mim após nossa primeira viagem juntos, quase dez anos atrás - quando tínhamos menos de um ano juntos. Encontrei-o vasculhando uns arquivos no computador e resolvi publicar aqui.

Ps2. Bom final de semana! Divirtam-se sem moderação. 
 . 

10 Comentários:

Wans disse...

Uau! Lindo! Acho que todos temos momentos assim. Isso me deu idéia de tb escrever um. Ou postar as cartas que trocávamos na época. Uma pena que a gente deixa essas coisas de lado qdo casamos, né?

bjão e não vai dar para aproveitar sem moderação porque vou aos meus pais. Fuck!

Paulo Braccini - Bratz disse...

Putz ... muito lindo ... definitivamente vc deveria se arriscar como o maridão e participar do concurso literário tb ... #fato

FOXX disse...

gente, q lindo, e obrigado pela explicação, sem ela eu não entenderia mesmo...

Fred disse...

Nada melhor que "vasculhar as gavetas" e descobrir que uma década depois as coisas continuam fazendo sentido! Maravilha de texto e com certeza essa vibe te cai bem!

E aquilo do tal músculo sempre me parece uma corcova... hahahahaha! Mega-findi pra vcs aêê!

Santiago Régis disse...

Quando leio textos assim rolando a internet, vejo que nem tudo está perdido :)

Nil Witchimichen disse...

70% dos meus textos antigos me dão vergonha.
Ei, isso significa que eu amadureci.. haha
=)

Junnior disse...

O texto está ótimo, envolvente. Mas, meus caros, o que aconteceu na Central do Brasil para tudo mudar de repente?

Lobinho disse...

Belo texto!Hoje relendo,vc mudaria alguma frase?
Abraços,menino.

Fernando Munhoz disse...

Lindo demais! Me fez chorar e imaginar um filem inteiro... Vou passear pelas outras postagens da semana... Bjão

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